Tarahumara - “corredores de pés ligeiros”
Porque os corredores Tarahumara despertaram o interesse dos traficantes mexicanos?
Povo nativo de México, uma tribo da linhagem dos Astecas que vive praticamente com os mesmos costumes e hábitos desde 1600 na Serra Madre Ocidental, território do estado de Chihuahua.
A palavra tarahumara no vocabulário próprio, Rarámuri, que etimologicamente quer dizer "corredores de pés ligeiros”, ou simplesmente, “os de pés ligeiros". Uma referência a uma das tradições mais antiga desse povo: correr.

Corredores Tarahumara
Os Tarahumara são conhecidos por sua capacidade de correr longas distâncias por horas e até dias consecutivos, sem parar. E não são somente os homens, as mulheres tarahumara também. Existem relatos que alguns já correram 700 km sem parar em um período aproximado de 48 horas. Seria o mesmo que correr o equivalente a 16 maratonas consecutivas.
Vários relatos evidenciam que corridas de 100 quilômetros, 100 milhas ou mais, já eram realizadas desde o início do século XX. E já se realizavam apostas em dinheiro nos corredores.

Corrida de 110 milhas em 16 horas no ano de 1906
No dia desta histórica ultramaratona de trilha de montanha, os dois Tarahumara correram pelas montanhas escarpadas, e o vencedor percorreu os 110 milhas em 16 horas, nem parecendo cansado no momento da chegada.
Outra atividade que faz parte da cultura desse povo é chamada de "rarajipari”, ou corrida de bola. Uma atividade milenar que pode durar mais de três dias sem parar, que consiste em realizar o arremesso de uma bola de madeira, conhecida como “queparlo”, com os pés ou com auxílio de um taco de madeira. São revezamentos onde as bolas são chutadas pelos corredores e retransmitidas para o próximo corredor, enquanto os companheiros correm à frente para o próximo ponto de revezamento.

"Rarajipari", em detalhe o "queparlo"
As corridas de bola, as de maiores distâncias, “têm uma duração de 15 a 20 horas para os homens e de 8 a 15 horas para as mulheres”, explica o antropólogo espanhol Ángel Acuña em um estudo sobre este jogo. “As primeiras cobrem distâncias de 100 a 200 quilômetros e as segundas, de 50 a 100 quilômetros”.
A maioria dos corredores dedica um de seus treinamentos semanais a um percurso mais longo do que o habitual, o que é chamado de longa esticada.
E o detalhe mais impressionante sobre tudo isso, é que eles praticam todas essas atividades apenas com o uso de “huaraches mexicanos”, um calçado mínimo, basicamente constituído de couro, pneu e corda, ou até mesmo descalços.

Huaraches mesxicanos
E essa tradição da corrida de longa distância não é somente uma atividade física, ela está relacionada também com aspectos cerimoniais e competitivos.
Os Tarahumara também realizam a caça com arco e flecha, pelo método da persistência. Que consiste em cansar o animal, seguindo-os em um ritmo constante por um ou dois dias até que o animal caia de exaustão. Animai como veados e perus selvagens são presas comuns.
Para manter o treinamento, normalmente realizam longas caminhadas diárias, pelas tardes, quando a intensidade do sol já diminui. Normalmente percorrem entre 20 e 10 quilômetros, dependendo do dia.
Aliados a essa quilometragem, vem o ganho de elevação. Como vivem em meio a diversos cânions, sobem e descem essas montanhas constantemente. O conjunto de cânions Tarahumara tem uma extensão de 60.000 quilômetros (mais do dobro de profundidade que o Grand Canion do Colorado, no Arizona, EUA). O mais profundo é o de Urique, com 1.879 metros.
São também conhecidos por possuírem uma técnica de corrida considerada “perfeita” por muitos. Uma explicação para isso é o fato do uso de huaraches desde pequenos, o que por consequência lhes garantem uma musculatura forte. Alguns testes evidenciam que ao corre mais descalços a uma maior tendência de pisar com o médio pé.

Padrão de corrida de um corredor tarahumara
A maioria deles dizem preferir correr com huaraches ao invés de calçados esportivos próprios, pois relatam que com esses, podem escorregar e são mais pesados.
Já com relação a sua alimentação, ela é basicamente constituída de feijão, burritos (tortilhas de farinha de trigo), milho que pode ser ingerido em pó ou misturado com água, é seu alimento básico, e pinole. Trigo e frutas são uma fonte secundária de nutrição. E maçãs, damascos, figos e laranjas são as frutas consumidas.
Também consomem carne, em torno de 5% da dieta, como peixes, frango e esquilos. Em algumas ocasiões especiais consomem vacas, ovelhas e cabras.
A alimentação
Assim como os índios brasileiros, os Tarahumaras também veem sofrendo pressão sócio ambiental de diversas formas. Forçando esses povos a migrarem de seus lugares de origem, muitas vezes intimidados por grupos de criminosos.
Mas esse potencial todo desses corredores também chamou a atenção de um outro grupo de pessoas, os traficantes.
Com um esse estilo de vida simples, muitas vezes passando fome pela dificuldade de conseguir alimentos em seus cultivos em função de secas, faz muitas vezes com que esses corredores acabem aceitando propostas tentadoras desses traficantes, os quais oferecemem média $800 para que eles atravessem correndo a fronteira com os EUA, carregando normalmente uma mochila carregada com 20 kg de maconha.
Esse risco todo muitas vezes é em vão, pois quando não são presos, acabam não recebendo o valor oferecido pelos traficantes.
E você, já conhecia a história dos Tarahumaras? Comenta aí o que achou ou alguma outra curiosidade.
E para conhecer mais um pouco mais sobre esse povo que nasceu para correr, assista esses dois excelentes documentários abaixo.

GOSHEN - Indigenous Tarahumara Rarámuri Running Tribe Born to Run

Lorena - la de pies ligeros
Referências:
Os camponeses mexicanos que ganham ultramaratonas correndo de sandálias
Os índios mexicanos que correm 700 km em dois dias – traficando maconha
CORREDORES DESCALÇOS
Jovem indígena ganha ultramaratona no México calçando apenas sandálias de pneu
29: The Tarahumara Ultrarunners
Tarahumaras
Rarámuri
4 Secrets of the Tarahumara That Will Improve Your Running



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